Garrincha

Um génio. Nasceu com as pernas tortas, mas manteve o sorriso sempre que esteve em campo, ultrapassando os rivais, muitas vezes mais do que uma vez, levantando os estádios e aumentando o assombro de quem o via jogar. Os seus chamavam-no de anjo. Os adversários acusavam-no de demónio, desesperados, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, Mané ia mesmo passar. Sempre pela direita. Sempre previsível em tudo, menos na altura em que ia fintar.

Nasceu Manoel dos Santos no 18 de Outubro de 1933, em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. Morreu 49 anos e três meses depois, derrotado pelo alcoolismo e por uma imagem negativa que deixou para trás. Ganhou a alcunha de Garrincha, um pequeno pássaro da região de Petrópolis, dada pela irmã, que usou no futebol. Cresceu com as pernas tortas, a esquerda seis centímetros mais longa do que a direita, ambas curvadas. Uma deficiência que terá ficado de uma poliomielite, segundo alguns testemunhos, ou congénita, de acordo com a biografia de Ruy de Castro. Já era um milagre que conseguisse andar, quanto mais praticar desporto.

Começou a jogar futebol no Esporte Clube de Pau Grande com 14 anos, mas saltou para o Botafogo depois de um teste. Nilton Santos, já um jogador experiente e com nome no futebol «canarinho», não o conseguiu parar no treino e todos ficaram rapidamente convencidos do seu talento. Começava a lenda. Depois de doze anos no «clube da Estrela Solitária» (de 1953 a 1965), Mané Garrincha representou ainda o Corinthians Paulista (1966), Flamengo (1969) e o Olaria (1972), neste último clube já com 38 anos.

Mané foi internacional durante nove anos (1967-1966), participando nos Campeonatos do Mundo de 1958, 1962 e 1966 e arrecadando títulos na Suécia e no Chile. Com Pelé e o «Pequeno Pássaro» em campo, o Brasil nunca perdeu um jogo. E Garrincha «sozinho», sem a presença do «Rei», apenas saiu derrotado num: frente à Hungria em 1966, antes de o «escrete» defrontar Portugal, jogo em que ficou no banco e que seria a despedida da equipa no Campeonato do Mundo da Inglaterra.

Marcou 17 golos em 60 internacionalizações, no Botafogo apontou 252 em 609 encontros. Estreou-se na equipa principal dos cariocas a 19 de Julho de 1953 (6¿3), com um golo marcado. No total, somou 283 tentos em 714 partidas. Mas, mais do que os números, a história de Garrincha fica marcada pela arte que deixou em campo. Quando o deixou de vez, depois de experiências frustradas na Colômbia e na Argentina, a vida caiu em desgraça.

Quarto filho de uma família numerosa, pareceu sempre estar destinado a uma vida marcada pela tragédia. O pai morreu de cirrose e perdeu duas irmãs. Teresa faleceu aos catorze anos, uma outra, ao cair de um camião numa festa. O filho desta última perdeu uma perna quando caiu de um comboio. O próprio filho de Garrincha, Neném, que jogou futebol no Belenenses, morreu num acidente de automóvel, em Fafe. Em 1992, nove anos depois da morte do pai.

Apesar dos últimos anos, ninguém no Brasil acredita que Garrincha foi menos do que um fora-de-série. Um dos maiores génios do futebol de todos os tempos.

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